quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Carta do "Zé agricultor para o Luis da cidade"

Por Leonardo Teixeira

Carta do Zé agricultor para Luis da cidade
 
 
    Prezado Luis, quanto tempo.

    Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.
 
    Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?

    Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês. Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade. To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.
Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro de uma tal de APA que criaram aqui na vizinhança. 

continue lendo abaixo...



    Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?

    Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né .) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?

    Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

    Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudi-lo.
Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.
 
    Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?

     Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou, as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.

    Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.
 
    Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. 

    Já recebi uma intimação do promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.
 
    Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia.. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

    Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo.. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

     Até mais Luis.

    Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta com papel reciclado pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.

FIM

 
A carta a seguir - tão somente adaptada por Barbosa Melo, foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF/IBAMA 88/89, deputado desde 1989, detentor do 1º Prêmio Nacional de Ecologia.

(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.) 


Realmente, em época de eleição, nós vemos e lemos de tudo...


Recebi esse texto através de uma lista de e-mails da qual sou integrante e, após lê-lo, me comovi com a situação do tal "Zé agricultor". Pobre agricultor familiar, que não polui ou gera o mínimo de impactos possível e é massacrado pelo sistema legislativo brasileiro, enquanto que nós (sub)urbanos somos o "mal encarnado", usufruímos ao máximo dos potenciais naturais de nosso belo país e saímos impune de todos os nossos delitos para com o meio ambiente. Contudo, essa leitura também me levou a seguinte reflexão:

Sinceramente, eu achei o texto interessante. Uma boa sátira, que mostra as desigualdades sociais e de aplicabilidade das leis que, por vezes, ocorrem em nosso país. Entretanto, nem tudo são flores quando nos referimos aos políticos brasileiros, principalmente em meio às campanhas políticas e discussões e propostas para alteração do Código Florestal.

O texto abaixo foi escrito por Luciano Pizzatto, que possui formação ambiental e é deputado desde 1989 e em 2010 pleiteia o cargo de deputado federal pelo DEM-PR. O mesmo que, um tempo atrás, defendia a mudança do estatuto do índio com o intuito de permitir a exploração de minérios por terceiros em terras indígenas e que, além disso, é reconhecidamente um defensor dos interesses de latifundiários (http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/redacao/161524_post.shtml).

O que nos leva a pensar sobre o real interesse do deputado Luciano Pizzatto, quando da publicação do referido texto. Pois bem, será que ele pretende defender o agricultor familiar das injustiças que por tempos os assolam ou cativar aquela percentagem da população que ainda não tem um candidato definido ou não possui meios suficientes para se informar adequadamente sobre os candidatos nas eleições de 2010. Estamos a, praticamente, duas semanas das votações e muitos de nós ainda não refletimos adequadamente sobre quem eleger para gerir o país nos próximos quatro anos. 

E é neste momento em que políticos, muitas vezes inescrupulosos, vêm até nós com seus falatórios ora mansos e cativantes ora fervorosos e eloqüentes para nos fazer crer que são a melhor opção dentre tantas "bizarrices" que se propõem a ocupar os cargos públicos de maior importância em nosso país. Portanto meus caros, devemos ser lúcidos o suficiente para entender que, na maioria das vezes, o texto não reflete a intenção. E como dizia minha avó "por fora bela viola, por dentro pão bolorento". E em momentos como esse, urge que reflitamos profundamente sobre  toda a informação que nos chega.

Ora, não pensem que venho aqui fazer apologia política a algum partido ou candidato. Simplesmente, quero alertar para o fato de que, hoje em dia, a internet atua de modo a contribuir para a formação da opinião de muitos e, quando lemos um texto como o que segue (de certo modo até comovente) podemos ser influenciados de maneira a aceitar de modo passivo atitudes que não serão benéficas em vários aspectos, como o pretendido desmanche da legislação ambiental brasileira.


Apenas para reflexão...


E como diz o matuto aqui no RN: "Abra do olho!"


Abraços.

Leonardo H. Teixeira - Ecólogo
Mestrando em Ecologia - PPGE - UFRN
Laboratório de Ecologia da Restauração - Campus Natal
Bolsista CAPES





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